Segunda-feira, 22 de Junho de 2009


Fábio Lucas*, JB Online

RIO - Minerar o branco (ArtePauBrasil. 304 páginas. R$ 40) ficará entre as surpresas de boa leitura nos últimos tempos. O que nos espanta em Ronaldo Werneck, na busca interminável da expressão poética, é sua capacidade de ventilar o texto com o seu poder de criação, único, festivamente original.

Explique-se: quando já envelheceram, pela exaustão, os signos gráficos jogados sobre a página branca, à procura de motivação visual, quando também os trocadilhos, bons e maus, e recursos aparentados, como o quiasmo, a paronomásia e o oxímoro, todos advindos da oficina barroca, quando tudo denuncia fadiga, tautológica, tediosamente repetitiva, eis que Ronaldo Werneck abre os salões da inventividade e recria o seu mundo, indo às fontes memorialísticas.
Rememorizações da infância, dos amigos, dos autores lidos e conhecidos, dos filmes e de seu elenco, de Cataguases e do Rio Pomba, das viagens e regressos, no país e no exterior. Enfim, Ronaldo Werneck, como de costume, arma a orquestração verbal e gera a própria mitografia, a vertente dos poemas.
Não é tarefa simples. Antes, produto de invenção, associada a vasto repertório acumulado. Há nos dois livros englobados em Minerar o branco – Preto nu branco e Tempos de mineração – momentos de virtuosismo comunicativo de alta dimensão.
O leitor se deixa embalar na fluência discursiva, festa de referências cultas, de coloquialismos populares, de representações simbólicas. As palavras ajeitam-se em forte expressão lírica e os poemas agregam tópicos da literatura em espanhol, em inglês, em italiano, em francês coloquial ou arcaico, sempre sedutores, cintilantes. Transbordam de significados.

O projeto gráfico ajuda o poeta a comunicar-se. Exemplo: “Dedicatória”, junção do visual e do verbal. “Zoeira e alfaia” testemunha a alegria da criação: o riso anda solto no livro, cuja parte dramática é igualmente densa. “Seis anos procêis” é puro jogo vocabular, no rumo daquele mundo extraordinariamente criador da mente infantil. A seguir, vem “Cançãozinha para Maria Teily” outra composição lítero-visual surpreendente, agora em celebração de dança.
Ronaldo Werneck viaja sempre, no som, na letra, no espaço, nas associações. “Cadê Teresa” exalta a Paraíba. Quando o poeta se encontra na Bahia, temos “Matusalém no Pelourinho: Caymmi então em seu caminho”.

Em obra de Ronaldo Werneck não poderia faltar gente de Cataguases. Está em todo canto, mas particularmente em “Legenda”. Em páginas adiante, feliz reverência à poeta Lina Tâmega Peixoto, em “Lina lê-se em ardósia”.

Mas o Rio de Janeiro também haveria de fazer figura na coletânea Minerar o branco. É o caso de “VateCínio” . Menos efeito nos faz o “Eleva/dor”, trocadilhesco demais, criador de menos.
Tal é, em síntese perambulante, o novo percurso de Ronaldo Werneck. Este, uma vocação, uma carreira, um destino para a poesia. Viaja sempre, pelo mundo natural e imaginário, sem deixar de ser poeta em nenhum instante.

* Crítico literário, membro da Academia Paulista de Letras e presidente do conselho da União Brasileira de Escritores

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009



Mataram a Poesia Lady
Gumes Jura Que Não Foi ela

Um poema zil

ma
ma
a floresta
rala
as araras
raras
os papagaios
nada
quero descobrir a nova fala dentro das penas de um bem-te-vi
dentro
dentro as escamas de um peixe espada
no cio das onças tigres lontras javalis e leopardos
quero minha nova fala ma ma mata a dentro
mesmo quando urbano sempre urbano entro
em cada carne em cada pedra onde subo pau a pique
Nick
a pedra é rock
a pedra é toque
a pedra é barro duro
e triturada é pó
faz tempo muito tempo
que não ouço
joão Gilberto
e ando tão desafinado
que o dente lambe a fala
e escava a lavra nova
faz tempo muito tempo
que não falo ave palavra
ave profana
ave cio
que não vejo o arrepio
de um pássaro selvagem
logo pós o pós mergulho
em algum canto
do rio
essa selva estraçalhada
faz tempo muito tempo
que não vejo
em mim cidade
goytacazes
goyta city
que não vejo em alvoroço
alegria quando festa
quando farra fausto
sol de verão
poesia e primavera
tudo o que ja foi
já era
mesmo o hoje
uma quimera
uma espera
insana e falsa
de um presente
que não vem
de um futuro absinto
mas que saber o que sinto
nada sinto
sinto muito
quer dizer
eu muito minto
minto muito
tudo é pouco
e o buraco
quando esgoto
na urbanidade do que falo
com os dentes na ferida
aqui tem tudo
falta vida
e a poesia foi vendida
e o poema
foi pro ralo

Artur Gomes
http://goytacity.blogspot.com/


Domingo, 7 de Junho de 2009




Guima Meu Mestre Guima


João Guimarães Rosa, nasceu em 27 de junho de 1908/1967. Não preciso, creio, dizer que este gênio mineiro da literatura brasileira, dominava fantasticamente a manipulação poética de todas as coisas. E em muitas línguas…

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”
Wikipedia
Entretanto, com sua simplicidade de bom mineiro que pescava e ouvia as histórias de um pai “contador de causos”, rendeu-nos um maravilhoso e estupendo contador de vidas, com uma narrativa inconfundível e se eu chamasse de perfeita, ainda estaria longe de ter acertado o adjetivo. No meu primeiro semestre - estou no terceiro - fizemos uma “brincadeira” com um conto de Guimarães Rosa a pedido do nosso mestre em Narrativa Luiz Fernando Carvalho. O conto chama-se Soroco, sua mãe, sua filha.
Trata-se da história de um homem simples, Soroco, personagem do Interior, que precisa internar sua mãe e filha que ficaram loucas. Minha missão foi narrar a dor de Soroco, mas em primeira pessoa. Ou seja, eu pude entrar no universo de Guimarães Rosa, com muitos pedidos de licença e apontando meu professor como o culpado. Mas como minha nota foi dez, e não foi a única, considero que o pecado não seja tão grave assim, por isso, vou transcrever meu trabalho e me perdoem leitores, pela ousadia, mas é pelo gênio que faço isso.
Já não era sem tempo e eu vejo que era esse o tal destino de uma loucura, duas doideiras de um só amor meu. Meu compadre tanto que me avisou - “É do sangue, Soroco, não tem jeito não”. Eu no fundo, só e desconfiado me sentia até culpado… mas de que culpa eu era condenado? Só se fosse por não ser também biruta… como minha mãe. E minha filha. E é única e era tão florzinha, pequenininha, linda mesmo, cheirinho de matinho novo. Mas sem mãe, a minha virou a sua e pensei na ocasião - “Nada mal… reclamo nada! Já vi dizer tanta desgraceira nessa vida, um tal de apocalips…sei lá o nome, que pai mata filho, irmão esfaqueia irmão e o mundo até acaba em aguaceira e trovoada, o céu desce pra baixo em fogaréu dos inferno - cruz credo! Olhando assim até que é nada mal mesmo perder as duas para o hospício. “Elas ficam bem”, garantiu o homem do governo. “Não passam fome nem aperto”… Quer saber - essa barba tá roçando… - eu nem mesmo sei nada da vida. Pra que cismar tanto, acabo eu embirutando… e eu lá ia me aguentar por acaso? Ouvir minha própria garganta estremecendo em chirimia de zoar até abelha!… Mas que coitadinhas, perderam o tino. Elas ficam em paz, eu sei. Mas que bicho cismado e egoísta eu que já penso em mim mesmo, sozinho lá no mato, mastigando um mato seco e olhando pro céu firme…saudade! É isso que eu vou sentir… Uma tal de solidão… Que vergonha Soroco! Não é homem não, bicho do mato? Minha mãe e mimha filha se debatendo em ventania insana e eu querendo brisa e companhia… Ora essa! Dá um teu jeito e pronto.
Vou me despedir e acabo logo com isso. Tá todo mundo me olhando. E que raio de jeito eu arrumo pra essa maldita e palhaça lágrima não rolar em minha cara… Nem cuspe eu tenho pra engolir… Que eu to sentindo uma febre me queimando no peito, lá isso é verdade, mas que homem chora eu nunca que ouvi falar por aqui.
Elas estão me acenando um adeus que nem sabem que é adeus pra sempre mesmo. Bato um adeus com a mão no ar, que controle foi embora, minha boca treme o que era pra ser um sorriso. Mas é uma baita duma careta, aposto! E não é que as duas estão cantando a maldita música que tanto me aporrinhava!… Mas agora… minha nossa… até parece prece no entardecer, parece mesmo a hora da Ave Maria… Por que será essa chirimia virou oração? E não é que até o céu parece eu, triste e cinza, seco pra chorar…
O povo todo me olha todinho. Tremo na carne; o trem se vai e eu rodo em meu corpo fraquinho que preciso ir embora. Nada de trem sumindo pra sempre, senão não vejo mais as cara delas, a solidão eu boto é no cabresto que eu sou macho… Mas macho pode cantar e já não ligo se a tal lágrima descer… vai chover mesmo. Ou então eu to suando e… chega! Vou cantar, mas só sei de decorado essa tal chirimia. Mas macho canta. Minha voz é fraca, mas sai tudinho num ritmo certo, parece rádio que repete a mesma música sempre…
Agora se danou: parece oração de romaria do padre Francisco, ou coral de fim de ano…Ou eu também fiquei biruta ou será toda a voz do povo a me acompanhar nesse meu canto emprestado das duas, as minhas abelhinhas sem memória… Cai lágrima, não sei mesmo te secar, nem nada da vida… Tão mesmo cantando? Se olhar pra trás eu vou saber… mas que me importa isso agora… de certo o céu não caiu e nem o mundo acabou. Elas ficam bem… Vou-me embora. Não vou mais cismar senão esqueço a canção…

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Divino Maravilhoso

Atenção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção menina
Você vem, quantos anos você tem?

Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Atenção para a estrofe e pro refrão
Pro palavrão, para a palavra de ordem
Atenção para o samba exaltação

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Atenção para as janelas no alto
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
Atenção para o sangue sobre o chão

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Caetano Veloso

Essa letra de Caetano datada lá dos ano 60, bem que poderia ter sido escrita nestes dias atuais que bem serve para ilustrar o hoje em Gothan City - a nossa Musa que continua Corrompida.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009



Nação Goytacá

As inscrições para o Concurso de Criação da Assinatura Visual da ONG Nação Goytacá – Associação de Arte e Cultura Esporte e Lazer, estarão abertas a partir do dia 3/6 até o dia 20/6. Regulamento e ficha de inscrição no blog http://goytacity.blogspot.com/

veja vídeo com a canção Nó do Tempo, de Cris Dalana http://www.youtube.com/watch?v=I3Kk-BKEDp4&feature=channel_page
May interpreta Artur Gomes
http://www.youtube.com/watch?v=IN4fknUxiwM&feature=channel_page


bolero blue

beber desse conhac
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas entredentes
indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo
quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é
que a fome desse beijo
furta qualquer outra
palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne
que não sai

Artur Gomes
Fulinaímaproduções:
http://youtube.com/fulinaima

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009




arte: leo gomes


Avyadores do Brazyl +
Reubes Pess +
Evolução da Espécie +
Artur Gomes +
Blogueiros Desocupados
&
Outros Baratos Afins

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009






    Memória

    Amar o perdido
    deixa confundido
    este coração.

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do Não.

    As coisas tangíveis
    tornam-se insensíveis
    à palma da mão

    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas,
    essas ficarão.

    http://www.memoriaviva.com.br/drummond/index2.htm


A morte emendou a gramática. Morreram Carlos Drummond. Não era um só. Eram tantos. Mas quem disse que Drummond morreu? E que ironia! Alguém tão cético provando que há vida após a morte! Mais do que qualquer outro gênio soube ser reconhecido enquanto vivo e não se deixar morrer mesmo negando os convites para se tornar imortal como membro da Academia Brasileira de Letras.

Tímido e recatado como bom mineiro, conta-se nos dedos as vezes que encarou uma câmera. Sua vida está em seus versos. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte / é doce herança itabirana. Filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade, nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, nunca foi dado aos cuidados da terra e desde muito cedo deu preferência às letras.

Foi aluno interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em Belo Horizonte. Interrompeu os estudos no segundo período escolar em 1916 por problemas de saúde. No ano seguinte teve aulas particulares e em 1918 foi aluno interno do Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo. Em 1920 foi expulso por “insubordinação mental” e do colégio guardou o modo de andar com os braços colados às pernas e a cabeça baixa.

Cursou Farmácia em Belo Horizonte para onde a família se mudara em 1920. Em 1924 envia carta a Manuel Bandeira manifestando sua admiração pelo poeta. É também neste ano que conhece Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

No início dos anos 20, o jovem Drummond participava do Jornal Falado do Salão Vivacqua. Tratava-se de saraus idealizados por Mariquinhas, uma das filhas de Antônio Vivacqua. A família, natural do Espírito Santo, havia se mudado para Belo Horizonte porque o poeta Achilles, um dos filhos de Antônio, estava com tuberculose e o ar da capital mineira era recomendado para o tratamento da doença. A beleza, inteligência e senso de humor de Mariquinhas logo cativaram Drummond. O namoro na praça era acompanhando por duas irmãs mais novas de Mariquinhas: Eunice e Dora, que anos mais tarde viria a se transformar em Luz del Fuego. O romance não foi muito longe. Em uma noite entediante, Drummond e o amigo Pedro Nava imaginaram uma forma de as irmãs Vivacqua (seis belas moças, além das três crianças Eunice, Cléa e Dora) “saírem à rua de camisola, feito libélulas esvoaçantes. Com um pedaço de papel, atearam um foguinho na seteira do rés do chão que ficava sob o quarto das moças. O fogo se alastrou, tomando conta de todo o porão da casa. Esquecidos das poéticas libélulas, os apavorados incendiários deram eles mesmos o alarme e ajudaram a apagar o incêndio” (in Luz del Fuego - A bailarina do povo, de Cristina Agostinho, Editora Best Seller). A brincadeira foi perdoada por Aquilles e Mariquinhas, mas Antônio Vivacqua proibiu os encontros da filha com Drummond.

Em 1925, Mariquinhas casou com um poeta fluminense e Drummond casou com Dolores Dutra de Morais. O poeta voltou para Itabira sem interesse pela profissão de farmacêutico e sem conseguir se adaptar à vida de fazendeiro. Dois anos depois, nasce seu filho Carlos Flávio, que só viveu por alguns instantes. Em 1928 publica na Revista Antropofagia, de São Paulo, o poema No meio do caminho, que se torna um verdadeiro escândalo literário. No mesmo ano nasce sua filha Maria Julieta. Filha única e sua grande paixão, Maria Julieta seria sua eterna musa, um verso meu, iluminando o meu nada, diria no poema A mesa. A cumplicidade entre os dois existia no mais singelo olhar e também na vocação. Escritora, Julieta jamais conseguiria destaque, sufocada pelo sobrenome famoso que carregava.

Alguma Poesia, seu primeiro livro, foi editado em 1930. Foram apenas 500 exemplares. Em 1931, morre seu pai, aos 70 anos. Três anos depois transferiu-se para o Rio de Janeiro e não mais voltou a sua cidade natal: Itabira é apenas uma fotografia na parede. / Mas como dói!

Drummond conseguia, a um só tempo, ser Chefe de Gabinete do ministro Gustavo Capanema, do Estado Novo, e usar suas palavras para destruir o capitalismo. Do gabinete ministerial, saiu direto para a condição de simpatizante do Partido Comunista Brasileiro. Agnóstico, conseguia clamar aos céus uma ajuda aos irmãos necessitados numa prece bem brasileira: Meu Deus,/ só me lembro de vós para pedir,/ mas de qualquer modo sempre é uma lembrança./ Desculpai vosso filho, que se veste/ de humildade e esperança/ e vos suplica: Olhai para o Nordeste/ onde há fome, Senhor, e desespero/ rodando nas estradas/ entre esqueletos de animais.

O modernismo no estilo de Drummond levou-o, com sua linguagem em diferentes ritmos, à popularização em um país onde se lê pouco. No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho ou E agora, José?/ A festa acabou/ a luz apagou/ o povo sumiu são versos que entraram para a História como ditos populares. Mantêm-se presente no linguajar popular de forma excepcionalmente bela: Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução.

A morte, assim como o humor, foi uma constante em sua obra:

Misturou o amor e a doença que levou sua filha com seu típico humor em Versos Negros (mas nem tanto): O amor, então, é a grande solução?/ Amor, fonte de vida... Essa é que não./ Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Em 1982 completa 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa de Rui Barbosa. Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No ano seguinte declinaria do troféu Juca Pato. Em 1984 assina contrato com a Editora Record, após 41 anos na José Olympio.

A escola de samba Estação Primeira de Mangueira o homenageia em 1987 com o samba-enredo O reino das palavras e é campeã do carnaval carioca naquele ano. No dia 5 de agosto morre a mulher que mais amou, sua amiga, confidente e filha Maria Julieta. Desolado, Drummond pede a sua cardiologista que lhe receite um “infarto fulminante”. Apenas doze dias depois, em 17 de agosto de 1987, Drummond morre numa clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro, de mãos dadas com Lygia Fernandes, sua namorada com quem manteve um romance paralelo ao casamento e que durou 35 anos (Drummond era 25 anos mais velho e a conheceu quando ele tinha 49 anos). Era uma amor secreto, mas nem tanto. Lygia contaria ao jornalista Geneton Moares Neto (a quem Drummond concedeu sua última entrevista) que “a paixão foi fulminante”.

O poeta mineiro deixou livros inéditos que foram publicados postumamente pela Editora Record: O avesso das coisas (1987), Moça deitada na grama (1987), O amor natural (1982) e Farewell (1996).